Centros Educacionais Unificados: arquitetura e educação em São Paulo (1) | vitruvius

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CEU Rosas da China, São Paulo. Arquitetos Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza
Foto Nelson Kon

“Porque não considerar em cada bairro, a escola, o grupo escolar, como fonte de energia educacional, como ponto de reunião social, como sede das sociedades de “amigos de bairro”, como ponto focal de convergência dos interesses que mais de perto dizem com a vida laboriosa das suas populações?” Arquiteto Hélio Duarte, 1951 (2)

Os projetos dos Centros Educacionais Unificados – CEU, gigantescas intervenções educacionais da Prefeitura da cidade de São Paulo nos seus bairros periféricos, constituem o capítulo mais recente de uma série de ações para o reverter o quadro da desigualdade social no Brasil. O amplo reconhecimento dos grandes feitos da arquitetura moderna brasileira pode levar ao equívoco de considerá-la ausente do enfrentamento das demandas sociais existentes no país. É comum o estereótipo da arquitetura excepcional, dos monumentos projetados pela ação de alguns poucos arquitetos geniais. Pesquisas historiográficas revelam que a generalização da arquitetura moderna no Brasil passou por sua destacada atuação na ação social do Estado, inclusive na educação, desde meados dos anos 1940.

O atual projeto dos CEU constitui mais um passo em uma longa história de interação entre arquitetos e educadores no desenvolvimento de propostas para enfrentar a perversidade do processo de urbanização das nossas cidades (3). Um personagem chave para entendermos essa interação é o educador Anísio Teixeira. Após sua pós-graduação com o norte-americano John Dewey entre 1927 e 1929, Teixeira desenvolveu e aplicou políticas educacionais onde a escola pública deveria ser estendida a todas as classes sociais e ser capaz de cumprir um papel formador do cidadão (4). Mas, enquanto nos Estados Unidos a escola servia a uma comunidade ativa, Teixeira reconhecia que a escola brasileira deveria se tornar um centro polarizador de uma comunidade inexistente. Frente ao rápido inchamento das cidades brasileiras, para que a concepção do pragmatismo educacional norte-americano funcionasse era necessário que a escola tivesse um papel destacado na transformação desses heterogêneos agrupamentos populacionais em comunidades organizadas. A escola passa a ser um instrumento para a estruturação da sociedade e das cidades.

A concepção programática de Anísio Teixeira encontrou uma forma arquitetônica moderna com um projeto realizado por Hélio Duarte e Diógenes Rebouças na cidade de Salvador, em 1947. Adeptos do movimento liderado por Lúcio Costa, esses arquitetos conceberam uma escola parque. Em meio a uma grande área verde, a transparência das salas de aula tornava obsoletos os prédios escolares da época, até então enclausurados em suas pesadas alvenarias.

As oscilações da política impediram a continuidade dessa experiência em Salvador, o que veio a ocorrer na cidade de São Paulo quando Duarte assumiu a direção de planejamento da Comissão Executiva do Convênio Escolar (1948-1952). A rápida expansão urbana de São Paulo na década de 1940 havia levado a um monstruoso déficit de vagas em escolas (5). Pressionados por movimentos populares, Prefeitura Municipal e Governo Estadual firmaram um convênio para a construção e operação em massa de escolas, propondo-se a construir em 5 anos 100 escolas para atender a 48.000 crianças. Objetivo que seria superado com a construção de 140 unidades entre escolas, parques infantis, bibliotecas e teatros populares.

Duarte reuniu uma equipe com jovens arquitetos que exploraram as potencialidades experimentadas em Salvador. As atividades previstas foram estruturadas em três conjuntos: ensino (salas de aula, museu e biblioteca), administração (suporte administrativo e serviços assistenciais) e recreação (área esportiva e galpão coberto para o recreio). Em geral, esses conjuntos assumiam a configuração de blocos volumétricos dispostos das mais diversas formas em terrenos amplos e ajardinados, interligados por marquises abertas. A ênfase nas atividades de socialização dos alunos entre si e destes com a comunidade local se manifestou na forma dos galpões de recreio, onde a presença de palcos apontava para sua utilização como espaço cênico.

Após o encerramento do Convênio, essa concepção da escola como instrumento de apoio à estruturação social e urbana continuaria a nortear diversas ações de outras instituições responsáveis pela construção escolar no Brasil, das quais os CEU são o exemplo mais recente.

O projeto concebido pela equipe de arquitetos do Departamento de Edificações da Prefeitura de São Paulo (EDIF), que se consideram herdeiros do Convênio Escolar, agrupa o programa em três conjuntos volumétricos de formas simples e despojadas. O maior em forma de grelha ortogonal reúne as salas de aula, refeitórios, biblioteca, programa de inclusão digital, padaria-escola, áreas para exposições e para a convivência. O menor, em forma de disco elevado do solo abriga a creche. O terceiro reúne em um paralelepípedo de cinco andares teatro, ginásio esportivo e sala de ensaios musicais.

A opção construtiva com sistemas pré-moldados disponíveis no mercado permitiu a agilidade necessária para a rápida implantação do programa, com 21 unidades entregues no primeiro ano e 24 unidades previstas para o segundo. Alguns recursos de projeto, como o recuo da estrutura horizontal do segundo pavimento em relação ao plano externo da grelha e a forma implantação dos painéis de vedação do bloco de teatro, denotam a intenção dos autores em atenuar o impacto dessa opção construtiva, usualmente associada às construções fabris. Assim, o forte aspecto tectônico é submetido a uma visualidade geométrico-abstrata onde os volumes principais procuram uma pureza formal tencionada apenas por pequenos volumes agregados que acentuam acessos e circulações e conferem uma certa escala humana à forma. Participam do conjunto duas torres cilíndricas de caixa d’água, dispostas para conferir um contraponto vertical à horizontalidade dominante e marcar o acesso principal.

Os três volumes possibilitam um leque de opções de implantação explorado por diversos arquitetos contratados para enfrentar as várias situações onde os equipamentos estão sendo construídos. Dois partidos de implantação são recorrentes: a distribuição perpendicular dos volumes, resultando em um espaço entre eles que remete a uma praça urbana e a concentração dos volumes linearmente em um longo edifício, introjetando nele a sugestão de urbanidade. A grelha ortogonal desse edifício permite uma flexibilidade de configurações que absorve pequenas variações de programa de um bairro a outro e ainda permite a criação de novos pavimentos que auxiliam na adaptação à topografia movimentada e às restrições das dimensões de algumas áreas. Assim, não estamos frente a um simples jogo de armar rígidos volumes pré-definidos. Suas formas variam discretamente conforme as necessidades do partido de implantação.

A gravidade da atual degradação urbana e social paulistana afastou a possibilidade de uma interação mais aberta com o tecido urbano circundante que caracterizaram algumas iniciativas semelhantes, mas mais modestas, no começo dos anos 1990. Os CEU querem inaugurar uma nova urbanidade para seus bairros. Mas não se trata de fazer uma “tábula rasa” do local. Esses partidos não se limitam a uma ação no campo do objeto e buscam identificar e transformar a situação territorial da área onde eles se instalam. Dialogam diretamente com as características geomorfológicas, tais como morros, várzeas e os cursos d’água que constituem o que resta de natureza nos terrenos escolhidos. Alguns exemplos podem ilustrar essa atitude tão cara aos expoentes da “escola paulista” de Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha.

A exigüidade e declividade da área do CEU Rosa da China induziram a uma disposição alinhada dos volumes da grelha de salas de aula e do paralelepípedo do teatro. Abandona-se assim qualquer referência às tipologias tradicionais de praças ou pátios. Pelo contrário, os autores optaram por alinhar também o nível da cobertura resultando em uma horizontal que serve de referência para variação da superfície do território montanhosa da região. Ação que remonta às mega-estruturas para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, projetadas por Le Corbusier na sua primeira viagem à América do Sul. Desde então, as horizontais gigantescas se tornaram um tema recorrente na arquitetura moderna brasileira, expressando a disputa do homem com a exuberante natureza das montanhas. Mas aqui, no desolamento das periferias paulistanas, da natureza resta apenas a forma da superfície terrestre. A não ser que considerássemos como “natural” a massa de edificações autoconstruídas que constitui essa paisagem urbana.

Frente à intensidade desse raciocínio em escala territorial não deixa de surpreender a delicada relação do conjunto com a sua vizinhança imediata. A opção em dispor o longo volume em grelha junto a uma das ruas resulta em uma seção de via próxima à escala humana (um julgamento que tem como parâmetro a própria cidade de São Paulo, caracterizada pela verticalização acentuada em seus bairros mais centrais).

A ocupação descontrolada das periferias deixou disponível para a construção de equipamentos sociais apenas algumas áreas de várzeas às margens de rios ou em áreas com nascentes, áreas protegidas pela legislação ambiental brasileira. Os autores dos projetos se aproveitam dessa condição e geram outro partido que procura incorporar esses cursos d’água no ambiente urbano. As implantações dos CEU Jambeiro e Perus, procuram redesenhar as margens desses rios, transformando as praças esportivas e as piscinas em terraços à beira d’água. Invertem assim o procedimento usual de voltar as costas para os rios, hoje altamente poluídos, ou de canalizá-los entre duas avenidas marginais. A constituição de parques fluviais é um tema que começa ser desenvolvido pela arquitetura brasileira como reação à degradação dos nossos recursos hídricos (6).

As implantações desenvolvidas em algumas áreas de nascentes resultam em projetos que exploram a relação com a paisagem dentro da tradição moderna brasileira. Os CEU Navegantes e CEU Três Lagos situam-se junto a cabeceiras da área de mananciais do principal reservatório de água de São Paulo, configurando um claro limite entre urbano e área de interesse ambiental.

No CEU Butantã, a situação do terreno com nascentes é menos espetacular. Sua concepção inicial previa o afloramento de um curso d’água, hoje tamponado, para a constituição do “lago da nascente” ao redor do qual seriam dispostos seus volumes. Além de estruturador da praça, esse grande espelho d’água seria o ponto de origem de um futuro parque fluvial. Caso fosse implantada na íntegra, esta versão contemporânea da escola parque traria uma nova síntese entre ação social e ambiental de forte conotação simbólica. Uma característica geográfica, a nascente de um rio, assumiria o centro da praça de equipamentos, conferindo significado territorial para o conjunto. Na versão edificada, o curso d’água aflora mais a jusante em um pequeno lago, restando no centro do conjunto os planos das piscinas e quadras esportivas.

Acompanhadas de ações de implantação de infra-estrutura viária e de saneamento básico nas suas imediações, as intervenções pontuam os setores mais pobres de São Paulo. Seguindo a experiência brasileira de equipamentos escolares como ponta da ação do Estado em regiões carentes, a arquitetura dos CEU procura gerar uma nova urbanidade onde forma e programa se encontram em um projeto de sociabilidade. Hoje vemos que as experiências do Convênio dos anos 1950 em São Paulo tiveram bom resultado urbanístico e social, sendo que muitas daquelas escolas auxiliaram a estruturação dos seus bairros. A perspectiva de sucesso desta iniciativa contemporânea pode ser medida pelos primeiros meses, mas também aqui apenas o longo prazo revelará sua eficiência social e urbanística.

Post scriptum

O tamanho dos problemas urbanos de São Paulo certamente apontam para projetos de longo prazo. Se projetos como esse, bem sucedidos na estruturação social e urbana das periferias, forem abandonados ao sabor dos resultados das urnas, estaremos condenando a cidade ao planejamento de curto prazo, o exato tempo entre uma eleição e outra.

sobre o autor

Renato Anelli é arquiteto, Professor Associado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP, Campus de São Carlos, e Secretário de Obras do Município de São Carlos na gestão 2001-2004.

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