As cidades paulistas na década de 1930: o Vale do Paraíba e Litoral Norte.

A Região Administrativa de São José dos Campos, no Estado de São Paulo, abrange a porção paulista do Vale do Paraíba e litoral norte. Do período das primeiras sesmarias que levaram aos primórdios da povoação ao período anterior ao acirramento da Industrialização na região, vários núcleos urbanos surgiram. Atualmente esses municípios são organizados em cinco Regiões de Governo: de Caraguatatuba (4 municípios), de Cruzeiro (8 municípios), de Guaratinguetá (9 municípios), de São José dos Campos (8 municípios) e de Taubaté (10 municípios). Somam, portanto 39 municípios.

O início da urbanização desta região é das mais antigas e remonta ao período colonial, sendo que a geomorfologia da região é determinante na formação da rede de cidades que ali se formaram. Segundo aspectos geomorfológicos podemos classificar as cidades em quatro grupos: Litoral de São Sebastião, alto Paraíba, Médio Paraíba e Planície Sedimentar Terciária.

Poster

Fig. 01: Vale do Paraíba: Zonas Fisiográficas. AB’ SABER, Aziz Nacib. Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira e arredores de São Paulo. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Geografia, 1958.

Após a ocupação do litoral, o início do “ciclo do ouro” fez com que o Vale do Paraíba se tornasse a principal área paulista de abastecimento das Minas Gerais. Sendo cada vez mais condicionada pelas vias de circulação, as ligações entre as áreas mineradoras e o litoral possibilitaram novas áreas de ocupação e povoamento. Floresceram pequenos povoados em toda a região em estudo, tanto na faixa litorânea quanto no Vale, e também nas áreas das serras do Mar e da Mantiqueira. Mas, na segunda metade do século XVIII, o Vale do Paraíba perdia gradativamente o papel de abastecedora das Minas devido aos seguintes fatores: transformações no sistema de caminhos, produção de insumos em outras regiões do estado e o crescimento econômico e político do Rio de Janeiro. A região do Vale do Paraíba e os portos do litoral norte do Estado de São Paulo apresentaram então um decaimento no ritmo do crescimento urbano e um retorno à vida rural.

Nesse período o café surgiu como alternativa para dar continuidade ao desenvolvimento econômico do Vale. Com a introdução do café, a região voltou a receber contingentes populacionais e a vida urbana se dinamizou, embora por um breve período, antes das plantações serem formadas no Oeste Paulista e o baricentro dessa economia se desviar definitivamente em direção a outras regiões do estado.

O período de difusão da cafeicultura no Vale do Paraíba vai até 1836, para o vale médio, e 1854, para o vale superior […] O período de produção máxima corresponde a cinquenta anos, entre 1836-1886, quando acelerada pela abolição da escravatura e correspondendo a processo contínuo de cansaço das terras, tem início a fase de decadência. (MÜLLER, 1969, p.29)

Com a decadência do café, no período final do século XIX até inicio do século XX, as condições e aspectos da urbanização no Vale do Paraíba e Litoral Norte passam a ser instáveis. Os núcleos urbanos do Médio Vale, que se desenvolveram ao longo do eixo de ligação entre Rio de Janeiro e São Paulo e na margem do rio, se beneficiaram da ampliação da Estrada de Ferro Central do Brasil, aliado aos capitais oriundos da produção do café, que ficaram disponíveis desde então, favorecendo o desenvolvimento da atividade industrial na região. Viu-se na população urbana, mão-de-obra barata e disponível, criando novas possibilidades à industrialização, o que conduziu o Médio Vale a recuperação do crescimento urbano.

Porém, as cidades localizadas fora do eixo principal, nas rotas transversais, que ligavam Minas Gerais e ao Litoral Norte do Estado, onde se encontravam os antigos portos (Ubatuba, Paraty, entre outros), tiveram seu ritmo de crescimento abalado pela decrescente importância no cenário regional. Também ficaram estagnadas as cidades do Alto Vale, decorrentes do deslocamento do eixo de circulação pelo traçado da E. F. Central do Brasil. Diante da dinamização e concorrência dos portos do Rio de Janeiro e Santos, o litoral perde sua importância regional.

Com a decadência na produção do café e a industrialização na economia regional (São Paulo e Rio de Janeiro), vimos nas cidades da Região Administrativa de S. J. dos Campos dois fenômenos: aqueles municípios localizados na Planície Sedimentar Terciária, beneficiados pelo sistema férreo, desenvolveram atividades industriais, comerciais e institucionais, ampliando a sua importância no contexto regional. As demais, por se encontrarem mais distantes desse eixo e com menor acessibilidade, entraram em estagnação, retomando uma agricultura para o abastecimento local. Esses pequenos núcleos urbanos mantiveram a paisagem da cidade tradicional de economia rural com policultura, tiveram seu patrimônio histórico preservado e mais recentemente se tornaram locais de desenvolvimento do turismo.

As redes cidades da Região Administrativa de São José dos Campos encontram-se em processo de urbanização distintos, alguns em amplo crescimento como o Município de São José dos Campos, outros com seu patrimônio em risco, como o de São Luís do Paraitinga, que teve seu núcleo primário destruído por inundação, durante o período de cheias que atingiu estados como São Paulo e Rio de Janeiro, em 2010. Mas dados do período em estudo já evidenciam essa distinção:

 A desigualdade de distribuição dos núcleos urbanos pelas duas zonas corresponde em flagrante desequilíbrio no índice de urbanização: enquanto o Médio Paraíba soma uma população urbana de 330.273 habitantes, correspondendo a 95,8% do total regional, o Alto Vale atinge apenas a 14.182 habitantes, ou 4,2% do total regional. (MÜLLER, 1969, p.3).  

Assim, as considerações de evolução unitária e à correlação com o fenômeno em plano regional evidenciam que o processo de urbanização foi contrastante nas regiões da área Administrativa de São José dos Campos, durante o período de acirramento da industrialização, e especialmente nas primeiras décadas do século XX, com a crise de 1930, faz com que no Brasil a economia urbano-industrial se torne o “principal fator de crescimento do país” (LACERDA et al. 2003, p.68).

Dentre as cidades da Região administrativa que se destacaram no cenário industrial nacional, somente São José dos Campos e Taubaté se posicionaram, sendo que algumas outras cidades tiveram importância apenas regional.

O estudo buscará contemplar os fenômenos urbanos de expansão e estagnação na região, no período em que algumas cidades perdem as feições de cidade agrária e assumem os aspectos da cidade industrial, observando a nova rede de cidades que então se formou.

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